
O velho Carlinhos
fotos. letras. histórias. Um amigo querido, cumprindo sua função de anjo, me telefonou para dizer “escreva”. Os últimos dias têm sido bem complicados e o Enio Lindenbaum sabia o que
O sol torrava Porto Alegre num meio-dia já avançado de dezembro, quase uma da tarde. As poucas coisas que se mexiam, o faziam com muito esforço e à custa de suor e reclamações – não muitas, que até elas representavam um dispêndio extra de energia. Eu e meu irmão abandonamos o interior do carro – onde um ar-condicionado deixava nossas ideias em confortáveis 22 graus – e ingressamos na cidade que fervia a 39, rumo a uma atraente churrascaria, que nos seduzia com suas carnes e temperatura amena.
Nas duas quadras que nos separavam do prometido oásis, cruzei com a praça Garibaldi, tradicionalmente acolhedora, mas sempre um ponto para se manter a atenção. Como muitas praças da cidade, linda e abandonada. Nos anos 80, morei num prédiozinho que nem existe mais, na rua José do Patrocínio, bem em frente à praça. Morávamos num apartamento de fundos, cuja única vista externa possível era obtida num cubículozinho de 3m de comprimento X 1,5m de largura, com muro de 3m de altura, tratado na vistoria como “área externa”. A saída, portanto, com muita frequência, especialmente nos finais de semana, se chamava praça Garibaldi, onde era possível ler um livro, “pegando uma fresca”.
Era na praça Garibaldi que aboletava minha cadeirinha de praia embaixo de alguma sombra, viajava para onde a leitura levasse e ainda escapava do calor.
Suponho que era uma quinta-feira de setembro, do ano da graça de 1985, quando uma professora (a Brígida lembra que foi ela…) buzinou, em aula, que o jornal O Estado, de Florianópolis, estava mudando para uma nova sede, aumentando a redação e, quem quisesse emprego, que fosse até lá e se apresentasse para a Debora para um teste.
A consulta ao Bira e à Luiza, colegas de aula, foi só com olhos, numa rápida virada para trás. Boca torta de “arrã” de um e polegar em pé de outro, saímos com direção às nossas casas para pegarmos mudas de roupa, escovas de dente e algum outro item importante, além de toda a disposição e alegria do mundo.
Luiza era quem morava mais distante, passamos primeiro na casa dela. Junta roupa, sacola, sacolinha, põe tudo dentro da mala e vamossimbora!!! Rumo à minha casa, em frente à praça Garibaldi, onde o Bira nos encontraria dali 1 ou 2 horas. Na época – acreditem – não havia celular!!! É sério!!! Nem o Tom Cruise tinha!!! Daí que tive que passar em casa para pegar roupas e avisar minha mulher à época, que apenas então soube do plano de ir para Florianópolis e fazer teste no jornal. Ela ficou sem entender muita coisa, mas como também tinha 20 e poucos anos, nada pareceu complicado.
O processo todo (contar o plano, responder perguntas, arrumar a mochila e esperar o Bira) levou, no máximo, uma hora – tempo em que meu flamante Trovão Azul (um Fiat 147, tão valente quanto cheio de massa) ficou estacionado na frente do prédio, em frente à praça, com a mala e os planos da Luiza em seu interior…
O ladrão foi consciencioso. Dá pra dizer que até camarada… A tampa traseira foi aberta com delicadeza e arrumar a lingueta arrombada requereu apenas um alicate. Depois de subtraída a mala, o ladrão teve o bom-senso de fechar a tampa – sei lá… a cidade tá uma insegurança só… vá que alguém ainda roubasse o carro, não é?
Tivemos que voltar na casa da Luiza para fazer outra mala. Até hoje ela lamenta uma correntinha, mas o plano seguiu, fomos para Florianópolis, todos passamos no teste e mudamos nossas existências.
A praça Garibaldi foi meu porto de partida para a vida. Lembro dessa história toda vez que passo ali. No dia quente em que fiz a foto que mora nesta janela, passei pela moça da bicicleta. Eu de um lado da rua, ela de outro. O calor estava forte, mas não pude deixar de registrar o abraço fresco das árvores. Lembrei das sombras que, gentilmente, leram comigo. As sombras não envelhecem.

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