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O velho Carlinhos

janeiro 31, 2022

Um amigo querido, cumprindo sua função de anjo, me telefonou para dizer “escreva”. Os últimos dias têm sido bem complicados e o Enio Lindenbaum sabia o que falava. Escrever, mais do que registrar, ajuda a desabafar. A gente pensa, escreve, lê, pensa de novo, apaga, faz, refaz, mastiga, suspira e assim vai saindo um texto, um choro, um sorriso, muitas lembranças. No dia 24 de dezembro de 2020 me tornei sexagenário; no dia 25 perdi meu pai.  Nascimento e morte. As duas pontas da vida se encontraram.  

Os amigos, pelas redes, foram fundamentais. Li cada recado, senti cada beijo e abraço e eles chegaram num momento muito especial, em que estava, particularmente, precisando de ombros e abraços. O astral para respondê-los é que já não estava dos melhores e preferi me recolher. Meu velho foi para o hospital no dia 14, depois de receber o resultado positivo para a Covid no dia 9. Ninguém aqui é negacionista e sabíamos da gravidade da situação.

Antes do meu velho ficar doente, a pandemia e a impossibilidade de lamber os filhos, sobrinhos, irmãos, amigos, amigas e vice-versa, já havia deixado a vida asséptica e solitária, desanimada, meio broxa. Distância, máscaras e  cotovelos, tudo regado a fartas porções de receio, medo e álcool 70º, não faziam parte dos meus planos para sessentar.

Minha mulher, meus filhos, netos, enteados e amigos não entregaram os pontos e se esmeraram para me oferecer tudo o que a tecnologia é capaz de fazer para nos alegrar. Teve chamada, recado, live, meet, presente, post… Foram tantos bits e bites na minha direção que quase soterraram a saudade.

Mas a Covid e seu jeito macabro resolveram se misturar à minha já estranha festa e ficamos sabendo, ao mesmo tempo, que havia chegado o game-over para meu velho. A tomografia, cujo resultado havia se tornado conhecido 3 minutos antes da chamada festiva da família, revelava 80% dos pulmões atingidos. Para quem já tinha 93 anos e a saúde fragilizada, era só uma questão de tempo. Ele – o tempo – acabou para meu pai às 2h45min do dia de Natal. Gosto de pensar, com razão, que ele tenha sido gentil e esperado mudar o dia para só então ir embora…

 

A gente pensa, escreve, lê, pensa de novo, apaga, faz, refaz, mastiga, suspira e assim vai saindo um texto, um choro, um sorriso, muitas lembranças.

Nascer no dia 24 de dezembro não é fácil. A concorrência é desleal… Tente fazer uma festa na escola, por exemplo… Nem o vigia vai aparecer… Depois, quando se cresce, piora. Seus amigos viajam, tiram férias, nunca estão… Você sempre é quem faz aniversário junto com o Natal, nunca o contrário!… Fazer aniversário com Jesus Cristo é concorrência desleal! O barbudinho é tão importante que consome a véspera e o próprio dia! Tá certo que ele é bem mais velho e, por isso, respeito… Mas não quer dizer que eu goste! Cheguei a ganhar da minha vó um pé de meia (soquete) de aniversário e outro pé de Natal. Foi brincadeira, mas serve para ilustrar o espírito…

Meu pai sabia disso e não iria complicar ainda mais a equação. Preferiu chegar direto na festa do JC e me deixar sozinho no dia 24, onde vou continuar com aquela cara de menino e vontade de brincar. Valeu, pai!!! Mais uma vez…

Meu véinho foi um cara especial, que me passou um enorme amor pela coxia, pela preparação, pelo planejamento, pela criação. Como ele, prefiro jogar de armador do que de centroavante. Na Copa de 1950 – aquela perdida para o Uruguai, no Maracanã – meu velho estava lá. Não fez gol, mas foi um dos alunos da Escola de Educação Física do Exército que desfilou e, no final do jogo, ficou em silêncio. O mesmo velho Carlinhos, muito tempo depois, já em Porto Alegre e longe da milicada, foi o funcionário “01” de uma agência de propaganda que começava no mercado, uma tal MPM Propaganda. Contador de mão-cheia, se divertia fazendo contas “de cabeça” mais rápido que os colegas de trabalho com suas calculadoras. Foi na MPM que pagou o primeiro salário a um redator que parecia ter futuro, chamado Luiz Fernando Veríssimo.

Foram 93 anos de vida, dos quais participei de 60. Mais que filho, fui seu amigo. Mais que filho, sou seu fã. Aprendi muito com o sujeito que diariamente, durante anos, chegava em casa e, antes de almoçar (nos anos 60 e 70 se almoçava em casa) levava um prato de comida para o mendigo que morava num cantinho do viaduto Otávio Rocha, em Porto Alegre – no dizer do amigo Eduardo Marques, “o viaduto mais bonito do mundo”. Vou sentir saudades do cara que me ensinou a ficar atento com quem não gostasse de flores, bichos e crianças; vou lembrar com reverência do sujeito que sempre voltava das caminhadas com uma florzinha colhida para minha mãe.

 

Obrigado a cada um de vocês. Mil vezes, obrigado. Como bons amigos, vocês foram capazes de rir e chorar comigo, me dedicaram palavras e abraços com felicitações e acalantos. Vocês me deram o que o ser humano tem de melhor para dar: gentileza.  

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